Quando a gente pensa no Rio, uma imagem meio colagem aparece na cabeça. Lá no alto, o sol e o Cristo Redentor. Lá embaixo, a praia, os paralelepípedos pretos e brancos de Copacabana e os corpos esculturais dos brasileiros e brasileiras. Existe outra cidade no mundo onde a estética dos habitantes faz parte do imaginário coletivo?
🇫🇷 Ler este artigos em Francês
Durante meus estudos, tive que encarar um ano inteiro de geografia do Brasil. Um ano tentando decorar os nomes dos 26 estados, quantos hectares de soja são cultivados em cada um deles, e outras informações que hoje estão perdidas nos confins do meu cérebro. Mas o que ficou mesmo foi a introdução do meu professor : chinelo e fio dental. Na época achei meio clichê e superficial, mas esses dois itens, além de chamarem a atenção de qualquer turista em férias no Rio, dizem muito sobre o estilo, o corpo e o cuidado com a aparência que definem o “carioca”. O professor Arnal acertou em cheio.
Depois de alguns meses por aqui, listei três coisas que, pra mim, ajudam a identificar um local. E por mais que os turistas tentem copiar o look — camisa da seleção e chinelo no pé — ser carioca vai muito além disso.
As marquinhas
Na França, as meninas gostam de pegar um bronze caramelo com Nivea. Cada uma se expõe ao sol do seu jeito, dependendo do medo que tem das rugas e do melanoma. Mas tem uma coisa que a gente evita ao máximo: marca de biquíni ! A meta é voltar pro escritório douradinha, uniforme, tipo biscoito assado.
No Rio? É o contrário total. Quanto mais visível a marca, melhor! E as brasileiras têm mil truques.
O kit inicial: fita adesiva e parafina

Sim, fita adesiva! É o famoso bikini de fita. As meninas fazem um biquíni com fita isolante pra criar uma marca superdefinida (a “marquinha”). Ainda não entendi bem como funciona colar nos mamilos e ali embaixo, mas posso testar por vocês. Uma camada de parafina e pronto: é só esperar o sol fazer o trabalho — de pé ou sentada (brasileiro quase nunca deita na areia).
Não dá pra saber exatamente quando a moda começou, mas em 2013 nasceu a marca Biquíni de Fita. O boom nacional veio em 2016 com Erika Bronze, empreendedora da Zona Oeste do Rio que chamou a atenção da mídia com seus biquínis de fita preta no terraço.

Em 2017, a tendência bombou internacionalmente com Anitta, no clipe de Vai Malandra, onde ela usa o tal biquíni. Mas mesmo ganhando visibilidade, parece que o uso ainda é exclusivo do Brasil. Me conta aí nos comentários se você já viu isso em outro lugar.
Ah, veja também essa foto de Vincent Rosenblatt mostrando uma marquinha de fita.
☀️ Chance de adotar a tendência: 3/5
O cabelo de cria
“Cria” é quem é nascido e criado nas comunidades, especialmente nas favelas e bairros populares do Rio. E dá pra reconhecer pelo cabelo. Aqui existe um culto ao loiro-loiríssimo. Os caras descoloram o cabelo (se chama nevou — tipo “nevou nele”), e também a barba, com água oxigenada e papel alumínio debaixo de 40 graus.

Mas meu corte favorito é o que apelidei de “abacaxi”. A descoloração é feita com uma touca de mecha que dá um visual quadriculado inconfundível. Um corte absurdo e estiloso, que mostra como o carioca faz tudo à sua maneira, sem ligar pras modinhas de fora. E tem também os cabelos cor Power Rangers — nunca vi azul ou vermelho tão vibrante.
🎒 Kit inicial: touca de mecha, descolorantes que provavelmente seriam proibidos no resto do mundo.
💇 Chance de adotar: 1/5
Os chinelos
A pedicure tem que estar em dia, porque faça chuva ou sol, o carioca tá sempre de chinelo (chinelo, em português mesmo). Tem as clássicas Havaianas, claro. Criadas nos anos 70, elas conquistaram o mundo e são fabricadas no Brasil. Mas o chinelo raiz do cria é o Kenner.
No começo, o Kenner era usado pelos surfistas do litoral entre São Paulo e Rio. Hoje, virou símbolo da cultura funk e das favelas — e está cada vez mais hype. Muito por conta do marketing bem-feito e colabs com artistas como Anitta, L7nnon e BK’.
🎒 Kit inicial: várias Havaianas (uns R$ 50), à venda até em farmácia! Um par de Kenner, você encontra nos shoppings (Botafogo Praia, Rio Sul, lojas de Ipanema ou versões falsificadas no mercado do Uruguaiana).
📺 Veja o comercial da collab entre Kenner e a escola de samba Mangueira — que fala sobre orgulho da favela e estilo do cria.
🩴 Chance de adotar: 5/5
E então, são mais bonitos mesmo?
Vocês vão dizer que eu não respondi à pergunta inicial. Os cariocas são mais bonitos que o resto do mundo? Deixo vocês julgarem. Eu tenho minha opinião. Mas uma coisa é certa: eles têm um estilo único, que ignora as modas internacionais e não tá nem aí pras Fashion Weeks.
Uma beleza que vem mais de um jeito de ser e se mostrar do que do guarda-roupa em si — uma mistura de descontração e confiança, que por aqui a gente chama de molho carioca.
Veja só um(a) carioca entrando no mar num dia de bandeira vermelha, ou sambando de chinelo no pé, e me diga: tem algo mais bonito que isso?
Quer mais?
- Um post no Insta sobre apropriação da cultura das favelas pelos gringos
- Um artigo sobre o estilo nas favelas
- O Insta de Vincent Rosenblatt, fotógrafo francês que captura a essência do funk brasileiro
- Um perfil que mostra os cortes de cabelo mais ousidos do Brasil
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